Quarta-feira, 26 de Setembro de 2007

Um filme

Nelson MandelaA partir das memórias do único guarda prisional de Nelson Mandela que falava xossa e que se tornou, com o tempo, num amigo dele, fizeram um filme, e os filmes não são documentários.

Mas contam, como podem, uma história.

Há uma cena em que o guarda, com a mulher e os filhos, africânder convicto da bondade do regime, caminha numa rua de uma cidade; de súbito, de uma carrinha, saem polícias que desatam a espancar pretos, depois de lhes pedirem o passe. Uma mulher deixa cair o bebé no meio da rua e é levada para a carrinha, debaixo dos olhos abismados da filha, pequenita, do guarda. Na casa dos familiares que tinham ido visitar àquela cidade, enquanto o Pai prepara o churrasco, no jardim, a miúda isola-se no sofá, silenciosa; a Mãe pede ao Pai que fale com ela e ele explica-lhe que a policia estava a cumprir a lei: a mulher não tinha passe, não podia estar ali. A criança pergunta: “nós temos passe? “; os Pais sorriem, dizem que só os pretos precisam de passe. A Mãe explica-lhe que Deus fez os pretos inferiores, entre os homens e os animais e que não podemos ir contra a vontade de Deus. A criança cala-se, mas, algures na conversa diz: “está bem separar o filho pequenino da Mãe?”

A falta de respeito, de sim-patia, a violência de nos separarmos, conceptualmente, dos outros, o atropelo à dignidade são evidências sentidas intuitivamente pelas crianças como claramente erradas. Depois, a cultura, as circunstancias, o medo de não pertencer ao grupo, o “senso comum”, vão ocultando a clareza da percepção infantil.

Chamem à cena demagogia, o que quiserem, ela vale um filme.

Entre nós, e agora, muito mais difícil de ver porque ao perto, a ridícula separação de castas existe. E nós não vemos como obrigamos as nossas crianças, pela força do medo de não pertencerem ao grupo e de não serem “normais”, a perderem-se da sua sabedoria primordial e evidente, do “self”.

 

publicado por paradoxosfilho às 12:55
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...

—“A verdade existe”, grita,

Lá do fundo do ser, a criança que somos,

Escondida de nós, que regemos, tirânicos,

Os limites aceitáveis da consciência lúcida.

 

—“Fanática, louca, perigosa, desumana, inconsciente, ignorante”,

Chamamos-lhe tudo o que servir.

;

Na força do combate de a calarmos,

Poderíamos ver,

Se o quiséssemos,

O medo da Verdade, disfarçado de Amor

Veríamos o poder, cobrindo o desespero.

A mentira que somos sem a verdade que é.

 

—“A verdade é um mito e não interessa”, corrige, submissa,

A criança que fomos, para a consciência que temos.

 

Porém, no centro perdido de todos os mortais

Escondida por séculos de medo e arrogância

A verdade de que somos todos um,

Com as plantas, os animais, as galáxias,

O universo inteiro e o seu mistério,

É uma certeza mais forte que tudo o que aprendemos.

 

publicado por paradoxosfilho às 12:53
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Quarta-feira, 12 de Setembro de 2007

Diplomacia

Do Publico, com a devida vénia:

"Informativo-Notícia 2007-09-12 08:56:00
China enviou diplomata à AR antes da chegada do Dalai Lama
As "razões conhecidas" alegadas pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, para o Governo não receber o Dalai Lama são, ainda assim, as de sempre: as boas relações diplomáticas com a China. Desta vez, como há seis anos, não terão faltado pressões diplomáticas por parte da potência ocupante do Tibete. Até porque, nestes dias, a secretária de Estado dos Transportes, Ana Paula Vitorino, esteve na China, onde promoveu os portos nacionais como porta de entrada na Europa.
Ontem mesmo, ao que o PÚBLICO apurou, um conselheiro da Embaixada da China foi recebido no gabinete de Jaime Gama - mas não pelo próprio -, numa audiência pedida pelos chineses para antecipar a chegada de Kenzin Gyatso (o nome de nascença do Dalai Lama e aquele que os apoiantes de Pequim utilizam)."
;

Se não podemos receber quem quisermos em nossa casa é porque a casa não é nossa. A intimidação é algo de inqualificavel. Podemos dizer que não gostamos das ideias de alguém mas o uso da força, da ameaça so pode ter uma resposta: a polida indiferença de quem finge não ter ouvido a grosseria. Bem fez o Presidente Sampaio, que, à revelia do governo, se encontrou com o Dalai Lama, "por acaso", no museu das janelas verdes, ha meia duzia de anos.

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publicado por paradoxosfilho às 11:01
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Sábado, 8 de Setembro de 2007

...

Vou fazer um poema, ou o que for
Sentado, olhando as ondas
Das árvores amigas e eternas.

Somos tão frágeis!
Morremos sem saber como
Ao dobrar de uma esquina
Do nosso caminho

O mistério do sentido de cada vida que parte
Dói de respeito e timidez.
Dói de não saber sentir,
Conviver com quem nos cerca,
Em total sim-patia.

Falemos mais com o silêncio das palavras
Falemos com a alma, o coração
E ouçamos

A dor é um vau, nela não nademos!
Procuremos o fundo onde poisar os pés.
Nas pedras apoiemos a vontade de passar,
Contra a vontade de boiar até ao mar sem fim.
publicado por paradoxosfilho às 15:47
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Segunda-feira, 3 de Setembro de 2007

Afirmações de um pedreiro-livre

Aqui se reproduz, com a devida vénia, a tradução de um artigo publicado no "Journal de Notre Dame" pelo senhor José da Silva, emigrante e exilado português

Eu gostava de ouvir as conversas dos adultos, em pequeno, e intrigou-me essa expressão: “pedreiro-livre”. Pronunciada com um desprezo algo temeroso, uma espécie de respeito malgré soi. A Maçonaria, que todos sabem vir de maçon, era o inimigo, eram as forças do mal, organizadas; mas, para além disso, ninguém me sabia ao certo explicar o que era, ocupados a benzer-se mentalmente ao ouvir tal palavra.
Hoje sei algo de Astrologia, deve andar pelos 40 anos que a estudo, mal ou bem, e sei que as nossas características psicológicas estão todas escritas, com uma precisão assombrosa, na nossa carta astral. Sei que a liberdade, por destino meu, me interessa mais que à maior parte das pessoas, sei que é meu destino sentir-me irmão daqueles que são desrespeitados e forçados a fazer o que não querem. Sei também que a mesma liberdade me impede de pertencer a qualquer organização, quiçá a qualquer grupo, estou sempre com cuidado para me não comprometer, destino meu. Não sou maçon.
Mas identifico-me com os pedreiros-livres da minha imaginação, vejo-me, no século XI, a desenhar na pedra uma curva para um arco da catedral, pago pelos burgueses, enquanto o bispo vem ver a obra e eu me interrogo se, de facto, precisamos dele para nos relacionarmos com o mistério. Por mim tenho a certeza de que não precisamos de matar os hereges, essa matança faz deles meus irmãos, faz do bispo meu inimigo. Nós, pedreiros-livres, somos aqueles que pensam pela própria cabeça, com o coração, claro, não é no coração que os chineses põem o pensamento?
A maior parte das pessoas, porém, não me parece fascinada pela Geometria, não sente o mesmo incómodo que nós ao ver alguém usar mal o compasso, não procurar a precisão nas palavras e nas ideias.
Os servos da gleba abrigam-se à sombra do castelo, desarmados procuram protecção. Fazem das ideias dos poderosos o seu senso comum, não pensam pela própria cabeça, porque isso é perigoso. Amocham. Pior: acreditam no senso comum, não geometrizam, são capazes de dizer, como o bispo, que lhes parece que aquele arco está mal, à vista, e são capazes de acreditar no que vêm sem usar o compasso. Mais que isso, são capazes de matar os que vêm doutra maneira, porque mediram. Claro, antes de matar ostracisam, humilham…, creio que procuram a segurança no senso comum, melhor, no que os poderosos pensam, no que os poderosos lhes dizem que lhes convém pensar.

Somos muito poucos, os pedreiros-livres. A maior parte dos burgueses continua na condição servil. O dinheiro libertou-os, formalmente, mas ficaram presos à servidão da corte. Imitam-lhes as maneiras, as roupas, o pensar. Não se sentem seguros fora desse macaquear dos poderosos. Acumulam dinheiro mas não se libertam da sua condição servil.
A geometria caminhou os séculos; da imprensa e do caminho-de-ferro às sondas Voyeger que saem, neste momento, do sistema solar; escreveu as leis: “Todos os homens nascem livres e iguais em direitos”. Porém os nossos irmãos procuram em toneladas de imprensa (livre!), como se veste a caricatura de corte que imitam, corteses! Continuam à procura da segurança na obediência e reprimem, ostracisam, quem pensar pela própria cabeça, quem puser em causa o seu mundo absurdo, insustentável no tempo, porque delapida os recursos do planeta com os seus falsos valores.
Quando construíamos as Catedrais fazíamo-lo na procura da Verdade, que sabíamos habitava no fundo da nossa alma e nos pedia que usássemos as nossas mãos e o nosso discernimento com liberdade. Chamávamos-lhe Jesus Cristo, Nosso Senhor, era em nome dele que defendíamos o direito dos irmãos à vida com sentido. Hoje sabemos que o mundo é vasto e que a Verdade tem inúmeros nomes mas somos todos um, o self  continua no fundo da nossa alma, bem visível, se o não ocultarmos de nós mesmos.

Os que escondem a verdade de si mesmos, esses nos entristecem. Não foi a Igreja nem a Nobreza que derrotámos; foi quem as usou como capa para esconder a verdade e contra ela lutou. Há, ainda hoje, na Igreja e na Nobreza, quem não tema a verdade e a procure. Esses não precisam de nos humilhar, temerosos ao ver os seus dogmas de ocasião contestados, agarrando-se à forma e procurando aniquilar quem procura o conteúdo.

A espada, símbolo do poder, era um instrumento nas mãos do nobre para exercer a sua responsabilidade. Um meio, não um fim. Hoje, o dinheiro é o símbolo do poder; continua a ser um meio, não um fim. Nem a espada nem o dinheiro são responsáveis pelo bem ou pelo mal que com eles fizermos. Merecem respeito, são belos instrumentos, símbolos de uma época. Mas não lhes obedecemos, usamo-los!

Neste momento, nos países mais ricos da Europa, cresce o número de pessoas que apaga as luzes quando delas não precisa, que recusa os sacos de plástico, que procura os gestos para dizer que está com a Terra, que está com a frágil vida deste pontinho azul no espaço imenso.

Nós, os portugueses, deitamos lixo nas áreas ecologicamente protegidas e os responsáveis por as proteger fazem lixeiras burocraticamente inacessíveis com o fim de cobrar multas. Em vez de usarem o poder do dinheiro para exercer a sua responsabilidade de proteger essas áreas usam-nas para criar dinheiro. Põe a Terra ao serviço do instrumento, não a respeitam. O nosso é um país em que um presidente da Câmara conseguiu que uma área ecologicamente protegida passasse para a posse dela para fazer um parque desportivo e fez lá prédios e vendeu-os. E chegou a primeiro-ministro!

Milhares de pequeninas tiras de terreno, nos arredores de pequenas cidades europeias, são acarinhados, ao entardecer, por citadinos que comem os saborosos frutos da terra e se recusam a comer os desenxabidos das grandes superfícies. Nestes últimos anos este fenómeno de burgueses jardineiros cresceu exponencialmente.
Nós, os portugueses, plantamos prédios nos terrenos férteis. Não queremos saborear maçãs, queremos o sabor das notas de mil.



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publicado por paradoxosfilho às 13:19
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