Sábado, 3 de Fevereiro de 2007

Comunidade Global que somos, face ao mesmo problema

http://www.ipcc.ch/press/prwg2feb07.htm Posso estar enganado mas acredito que está na nossa natureza procurar a verdade. Imagino um antepassado mesmo antigo a usar um pau mais comprido que aquele que o grupo costumava usar para deitar abaixo os frutos da árvore; imagino os outros “macacos” a rirem-se da falta de pontaria dele, a não acertar nos frutos por usar um pau muito comprido; mas estava na natureza dele experimentar. E imagino-o a pôr-se em cima de uma espécie de banco e a conseguir. Essa atitude é-nos natural. Como nos é natural ficar inibido com o riso dos outros e desistir: precisamos de nos sentir integrados no grupo e a rejeição emocional é penosa. Por outro lado há de ter sido um prazer ver como todos passaram a usar o “banco”, dali para a frente. A atitude de tentar compreender as coisas tem sido seleccionada ao longo de milénios. É-nos natural.

         A ideia de que podemos ser livres, de que não precisamos de servir a um senhor para sobreviver ainda hoje não é intuitiva, é "muito avançada". Não chegou ao senso comum completamente, por mais que se diga o contrário.

         Portugal (nome que nasce do “Porto”, cidade burguesa), que tinha reis pobres, um feudalismo ainda mal estruturado e restos da cultura urbana romana e muçulmana, mediterrânica, teve condições favoráveis para essa ideia, desde o princípio. Apareceram muitas “vilas francas” entre nós, como apareceram cidades na Flandres e na Itália— a bela Florença, por exemplo! — onde a ideia de ser livre floresceu. Mas, e perdoe-se que não fui verificar a História, Portugal deve ter sido o primeiro país inteiro em que a burguesia toma o poder. Calhou assim! Como a nobreza, naturalmente leal, seguindo a legalidade e os costumes, prestou vassalagem ao rei de Castela, houve uma oportunidade para criar novas regras. João das Regras, ainda hoje odiado pelos que se recusam a usar um banquinho para apanhar a fruta— preferem ter criados que a apanhem! — lá conseguiu fazer aceitar a nova ordem pelos outros países da Europa, e pelo papa, que era comprável, perdoe-se o facto histórico. Nun’Álvres Pereira, um filho muito mais que segundo de um muito pequeno fidalgo teve a sorte de que, nessa altura, o duque de Lancaster reivindicava direitos na Galiza. Arranjou um aliado importante, o povo alinhou e venceu Castela. O mestre de Avis foi aclamado rei pela burguesia de Lisboa e pelo país todo. O primeiro rei burguês, que se casou com a filha do duque de Lancaster e começou uma nova história.

         Henrique, um dos filhos (rico graças à fortuna dos templários que o seu trisavô, D. Diniz, soubera acautelar criando a Ordem de Cristo, da qual Henrique era o Mestre) quis ver se a Terra era mesmo redonda, como alguns antigos em Alexandria já sabiam mas que não era ainda do senso comum, nem sequer do bom senso. Experimentou, foi ver; e trouxeram-lhe novas de que o céu era diferente, lá para o Sul, apareciam novas constelações!

         Toda a atitude de Portugal era científica, experimental, ver para crer, procurar a verdade, desconfiar do que Aristóteles dizia. E, como teve sucesso, levou a Europa toda atrás, nessa atitude. Daí Fernando Pessoa dizer que Portugal inventou a modernidade, fenómeno europeu, mas de que éramos a cabeça, a ponta de lança.

         Castela alinhou na aventura, depois a Europa, hoje o mundo todo. O “banquinho” que é a ciência passou a ser usado por todos, já ninguém se ri dele.

         Ontem, 2.500 cientistas vieram dizer, muito oficialmente, com a chancela da ONU, que, “inequivocamente” a aventura levou ao aquecimento do planeta e que, se não pararmos de aumentar a produção de CO2, cujo teor nunca tinha sido tão alto na atmosfera desde há 650.000 anos, damos cabo do planeta. Custou-me ouvir um dos ministros do Canadá, um dos países mais civilizados do Mundo, dizer que ficara surpreendido com a dimensão do problema. É falso, já sabia, todos sabem! O CO2 subiu 20%, na atmosfera, nos últimos 10 anos, é um facto. Já não se podem rir da ciência mas ainda podem fazer de conta, adiar. “Quem está bem deixa-se estar”.

         Mas está no ar um novo Renascimento, uma nova Idade, o povo vai ter que mudar as regras, como no tempo em que os “minori” tomaram o poder no Palazo de la Signoria, em Florença, ou o mestre de Avis deitou pela janela o Conde Andeiro.

         Enquanto português sinto-me responsável. Nós criámos este mundo. Não me interessa que os outros “macacos” se riam. A nossa alma adormecida tem aqui um desafio à sua altura. Empenhemo-nos, radicalmente, em não aumentar a nossa produção de CO2 (embora estejamos abaixo da média europeia, embora tivéssemos saído de cena antes da industrialização, nem sabemos bem o que isso é — mas não nos desresponsabilizemos!). Somos ainda a cabeça ou a face da Europa, ainda a podemos levar, de novo, e ao Mundo, por novos caminhos, novos paradigmas a inventar (ouço o riso dos "macacos").

         "Sem a loucura que é o homem / Mais que a besta sadia / Cadáver adiado que procria?". Que se riam os “macacos”! « Rira mieux qui rira le dernier ».

Que cenário destes vamos escolher, comunidade global que enfim somos, face à mesma ameaça?

 

 

 

publicado por paradoxosfilho às 14:20
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13 comentários:
De Franc a 3 de Fevereiro de 2007 às 22:02
Pois...Isto dá-nos mesmo que pensar, ou melhor, depois de ler este extraordinário artigo, só posso e quero é actuar, ser diferente, mudar algumas práticas minhas. E espero não ser o único. Saudações esclarecidas do Francisco.


De paradoxosfilho a 3 de Fevereiro de 2007 às 23:41
Em 1 de Março sai o relatório final, creio. E, embora os cientistas sejam muito cautelosos em nao dar sugestoes práticas aos politicos, que acham que nao é a funçao deles, muita coisa prática vai aparecer. Afinal temos o poder de ser consumidores, podemos escolher os produtos das empresas amigas do ambiente. E podemos melhorar o isolamento térmico das nossas casas, por exemplo, andar a pé quando o carro nao é preciso...muita coisa! Abraço agradecido


De antonioduvidas a 4 de Fevereiro de 2007 às 22:12
Que maravilhosa abordagem deste drama que nos está a bater à porta!... Como foi possível deslizar até este ponto! E agora? Como alterar o habitué? Não vai ser fácil, mas algo tem de ser feito.


De LNT a 9 de Fevereiro de 2007 às 09:45
Vê, se arranjas um tempinho para por aqui um link para o site da viagem.


De anonimo a 10 de Fevereiro de 2007 às 23:39
vvvvv


De antonioduvidas a 13 de Fevereiro de 2007 às 22:13
Não resisto a um comentário que não tem a ver com o artigo anterior.
Como no passado recente trocamos c/a máxima simpatia uns floreados sobre a Av. dos Aliados, fico agora perplexo ou talvez não c/a notícia de ontem do JN "Av. dos Aliados será salão de baile" na época do Carnaval c/equipamentos de diversão como carrossel, insufláveis, jogos de feira etc.
Foi para isto a tão contestada remodelação, interrogo-me.
C/as minhas saudações, antonio


De caminheiro1 a 14 de Fevereiro de 2007 às 23:44
Meu caro António, vou intervir porque acabei de passar há poucas horas a descer a Avenida dos Aliados e lá estão o carrossel e os insufláveis, sim senhor. Poderias até passar por lá para fotografar antes da grande azáfama e enquanto estão em fase de montagem porque o espectáculo é deprimente. Quanto ao nosso amigo autor deste blog só te posso dizer que ele em breve te responderá, pois de momento está impossibilitado. Aquele abraço do Francisco.


De paradoxosfilho a 25 de Fevereiro de 2007 às 23:14
Espero que a Avenida tenha servido bem esse programa carnavalesco. Eis uma das funcoes que nao podia cumprir antes :-)


De Franc a 26 de Fevereiro de 2007 às 14:39
Ora essa! Isso é que podia cumprir antes. E tanto podia que cumpriu por muitos e muitos anos, com jardins, bancos e pombas. Enfim...Vida. Agora transformar o hall de entrada ou a sala principal em sala de divertimentos...Com franqueza...Faz-me lembrar a anedota da leitaria, padaria e do parque de diversões...Bom, passemos a uma questão importante: estou a ver que já chegou. Quanto a pormenores, temos tempo de os ouvir. Saudações bloguistas do Francisco.


De paradoxosfilho a 2 de Março de 2007 às 13:24
Cheguei ontem! E foi assim tão ruim, o Carnaval na Avenida?


De antonioduvidas a 4 de Março de 2007 às 17:18
Poderei ser acusado de chover no molhado mas hoje fiquei entristecido, numa visita que fiz à Câmara, do varandim olhar para o deserto dos Aliados! Mas uma coisa não nos podem tirar, são as imagens dos belos jardins enquadrados por desenhos de calcáreo e basalto que a net abundantemente nos proporciona! Agora percebe-se como há que preencher aquele eirado, salpicado junto ao tanque com cadeirinhas pindéricas, nem que seja com carrosseis! Mas do mesmo autor há outros desertos (o homem é mesmo contra a verdura) como passeio de Leça onde até a vontade do autarca foi maldada às malvas, sem um arbusto!...
É pena!... Mas eu até gosto de ir à Casa de Chá de Leça (ai há tantos anos que não vou lá)!...
Saudações, antonio


De paradoxosfilho a 5 de Março de 2007 às 11:45
Como lhe disse aprecio o arq. Siza e nao o arq.Souto Moura, o qual nao plantou arvores em Matosinhos mas fez um enorme parque de estacionamento subterraneo.


De antonioduvidas a 6 de Março de 2007 às 19:39
Bem, mas esse grande parque de estacionamento parece que ainda está às moscas tal como o tal que construiram no Castelo do Queijo!
Sem querer fazer cavalo de batalha, sou um pacifista, daquilo que fizeram aos Aliados será que R. Rio lá do seu gabinete quando assume ao patamar e olha para baixo ficará indiferente!? Tenho para mim que os políticos são frios, de coração empedernido, e este até achará tudo na maior!... E com isto dou por terminado o assunto "Aliados" pois sempre que o abordo o meu sentir de portuense fica amachucado!...
Saudações, antonio


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