Segunda-feira, 12 de Março de 2007

Liberdade

   

         A Liberdade, esse mito moderno que partilho com tanta gente, talvez seja um aspecto da nossa ambição de entendimento, de conhecimento. Presos na nossa subjectividade queremos entender os pontos de vista dos outros, parece que nos queremos aproximar do ponto de vista divino, da omnisciência. E porquê? Porque é no nosso entendimento do sentido das coisas que se baseia a nossa segurança e é doloroso confrontarmo-nos com as insuficiências dele. É como se vivêssemos num filme em que já conhecemos as personagens, as regras do jogo e em que, a cada passo, elas nos mostrassem novas facetas, a sua infinita complexidade. O conforto de entender posto em causa, ou criamos um novo entendimento, mais complexo, ou tentamos impor o nosso, nos irritamos e falhamos; porque as personagens têm o seu e não se submetem ao nosso.

         A Liberdade é o que poderia vir de termos à nossa disposição os pontos de vista todos. De aceitarmos e entendermos os dos outros e de sermos, pelos outros, aceites e entendidos. De ter a visão global, alargada, que nos evitasse a triste reacção de nos irritarmos com os comportamentos que saem fora do nosso entendimento do sentido das coisas.

         Mas isto, a Liberdade, não passa de um ponto de vista, uma proposta de filme, de funcionamento social. Que fazer com quem a não aceita, com quem quer impor os seus pontos de vista pela força, essa falta de respeito e sensibilidade? Impor o nosso, o da Liberdade? Isso é uma contradição nos termos. Daí a noção de direito de defesa, de um limite para a liberdade do outro— quando ele quer impor o seu filme, a sua visão do mundo, somos forçados a não permitir. Fazemos uma fronteira, não nos submetemos. Dialogamos. Mas se não querem dialogar, esse processo que alargaria o entendimento de ambos?

         Se fugirem ao diálogo, à busca da verdade possível, da visão binocular, com relevo, que vem da fusão de dois pontos de vista, se preferem tentar impor que percamos o nosso ponto de vista e alinhemos com o deles, se nos dizem que não há nada para conversar, lhes basta um olho, um ponto de vista, então não fazemos nada! Nada. Continuamos disponíveis para “trocar” pontos de vista mas nada podemos fazer que não viesse destruir o nosso mito de Liberdade.

         A natureza dá-nos, porém, uma esperança: permite-nos fechar os olhos, fechar a boca— mas não podemos fechar os ouvidos! Os conceitos expostos em palavras, mesmo que não sejam aceites, são ouvidos. E, no silêncio, fica a esperança.

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publicado por paradoxosfilho às 12:14
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2 comentários:
De caminheiro1 a 12 de Março de 2007 às 23:12
Eu já escrevi isto mas não me canso de repetir: é por esta e por outras que este espaço fazia falta. Lê-se com gosto e reflecte-se em questões fundamentais, como a referida. Obrigado, meu caro. Francisco


De paradoxosfilho a 13 de Março de 2007 às 12:14
Lá está o Francisco, que sugeriu que este blog existisse, sempre a apoiá-lo (repetimo-nos!). Obrigado.


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