Terça-feira, 13 de Março de 2007

Entendermo-nos

Referência cultural

         Entendermo-nos parece fácil, se soubermos a língua em que o interlocutor se exprime; e se formos honestos, francos, se procurarmos ser claros, se quisermos comunicar.

         Mas, de facto, é difícil!

         Apesar da (excessiva!) informação que nos cai semelhantemente em cima, todos os dias, apesar de vermos as mesmas telenovelas (que também nos caem em cima se aparecermos depois do jantar!), apesar de falarmos a mesma língua, todos temos um fundo cultural diferente. Imaginemos um lavrador (dos que já não existem!) a falar com o filho engenheiro. Este propõe-lhe, por exemplo, que se converta à agricultura biológica, apoiada pela União Europeia, fala-lhe das consequências ecológicas dos fertilizantes com azoto que vão ter ao ribeiro e daí ao Mar, dos insecticidas organofosforados que não são degradáveis… e o Pai ouve-o; a cultura popular tradicional (em vias de ser substituída pela das revistas de escândalos) é riquíssima, cheia de bom senso, tem sempre um dito de antiga sabedoria para tudo— mas que fazer quando confrontada com o pensamento científico? Com a verdade baseada na descoberta de leis naturais a partir de factos mensuráveis e não da Teologia? Se aqueles produtos funcionam, porque não havemos de os usar? Só se o Vaticano instruir os padres sobre esse novo pecado… e mesmo assim… mas talvez não seja um bom exemplo, ainda há velhos lavradores que ficariam contentes por abandonar os produtos tóxicos e voltar a fazer a compostagem tradicional do estrume— e braços para o fazer?

         Imaginemos antes o jovem engenheiro a falar com o velho senhor das terras, formado em Coimbra, em Direito (claro!) cuja matemática ficou pela tabuada e de ciência conhece a Jurídica, leis mal baseadas em observações, antes na moral e nos costumes, soberanamente alheias à experiência, muitas vezes desastrosa, dos seus efeitos práticos… não é fácil!

         Fácil é estabelecer-se uma desconfiança mútua:  “como hei de falar de ciência com quem a confunde com moral”? e: "este rapazito quem pensa que é?"

         Saltemos para um contributo para ajudar a melhorar a situação, uma convicção partilhada.

         Uma cultura, ouso até dizer, uma “civilização” que teve sucesso foi a dos nossos herdeiros, os ingleses, que pelo mundo semearam a língua de Shakespeare. Como se entendem uns com os outros? É minha convicção que os estudantes ingleses, desde os tempos elisabetianos, não se ficaram pela ciência. Todos leram o dito dramaturgo e, com isso, interiorizaram, incluíram na sua estrutura mental a essência da sua civilização, até a sua sabedoria popular. Criaram uma linguagem comum. Há sempre uma frase de Shakespeare de que ambos os interlocutores se lembram, ao mesmo tempo, no decorrer de uma discussão. E há o humor, a ironia, o respeito pelo adversário— tudo está, também, nas peças de teatro que todos conhecem.

         Temos Camões, eu sei, poderia servir para nos conhecermos— mas parece que fazemos gala em o não ler! O que me parece interessante lembrar é que houve quem quisesse que tivéssemos uma referência que ultrapassasse a dos ingleses. Quem imaginasse o aparecimento de um “Super-Camões”, sem saber, sabendo, quem o poderia ser. Quem criasse a derivada do drama, o “drama-em-gente”, quem levasse a paradoxal essência da nossa civilização, universal, por portuguesa, a uma obra literária. É minha convicção que, se o lermos, todos, aumentaremos exponencialmente a possibilidade de nos sabermos entender uns com os outros: falaremos a mesma língua. E é ainda minha convicção que isso se vai passar. Mais século menos século!

 

 

publicado por paradoxosfilho às 14:21
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4 comentários:
De Franc a 13 de Março de 2007 às 22:53
Não me vou repetir. É só para dizer que passei por aqui, li e gostei. Saudações bloguistas do Francisco.


De paradoxosfilho a 14 de Março de 2007 às 01:07
Obrigado por ler! Um abraço


De Pedro a 14 de Março de 2007 às 19:38
Lêr é, de facto, um meio efeciente, para aprender-mos a nossa linguagem. Linguagem essa que é essencial para que possa haver comunicaçao entre as pessaos. No entanto, os problemas de comunicaçao entre as pessoas da sociedade em que vivemos nao se deve a uma falta de cultura linguística, mas a uma falta de vontade de se querer exprimir correctamente. Uma grande parte das pessoas cada vez mais estão preocupadas em ir a correr para o emprego, fazer o seu trabalho, e voltar para casa aonde vao tratar das lides domésticas e depois vêr as ditas telenovelas. Nao estão preocupadas em comunicar correctamente com as pessoas. Há outras preoridades. E, além disso, nao é visto como importante o 'bem-falar' português. As pessoas uma uma linguagem simplificada, sem a beleza do nosso portugues (que Camões pelo Mundo divulgou). Hoje em dia, até já ha um outro português, utilizado pelos jovens quando comunicam por mensagem ou em programas de chat! Isto sim é grave pois, de facto, ha problemas de comunicaçao entre os jovens. Muitos sao os que nao se conseguem exprimir pois (esses sim) nao têm vocabulario para se saber exprimir.
Lêr e 'cultivarmo-nos' em português é de facto importante. Mas o problema na comunic~ção, hoje em dia, reside numa falta de vontade em ter o cuidado e atençao para comunicar com clareza! Este problema vai ser, sem dúvida, muito maior quando a geraçao que hoje é jovem, for adulta. Pois estes vao comunicar num portugues que em nada se compara ao portugues de Camoes!!


De paradoxosfilho a 14 de Março de 2007 às 19:49
Sou mais optimista! Creio que há muita gente a ler algum dos heterónimos e a chegar aos outros, a ganhar uma visão paradoxal--portuguesa!--que lhes permitirá melhor conversar com os outros. Obrigado!


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