Terça-feira, 6 de Março de 2007

O poder não é útil

Deserto que já foi verde 

Somos um animal ambicioso, realizámos artefactos e sociedades organizadas que nos surpreendem a nós mesmos. Mas somos animais, uns primatas cuja situação “natural” é ter um chefe que para isso lutou e disso tira os privilégios. Os nossos primos menos brilhantes também têm o instinto da solidariedade, não se ficam pelo da luta pelo poder. Acontece que foi esse instinto de solidariedade que nos permitiu organizar sociedades capazes de permitirem as nossas proezas como espécie. O pacifismo radical de Buda ou de Jesus foi uma descoberta cultural sem a qual não teríamos chegado a este grau de complexidade. Tão grande ela chegou a ser que nos esquecemos da nossa natureza animal; quando a redescobrimos, com a modernidade, com a ciência, houve uma reacção anti-religiosa cujo caminho continua ainda hoje (embora o crescente movimento New Age já seja o sinal de uma reacção contrária). Darwin, o naturismo, o fascismo dos anos 30 são a modernidade a dar importância ao facto de sermos animais. Os fascistas criaram o culto do poder, do chefe e até da violência (hoje sabemos como os animais são poupados com a dita em relação aos da sua espécie).

O liberalismo é uma forma de manter a luta animal, que os nossos modernos continuam a considerar inevitável, dentro das regras da competição. A maior parte das pessoas continua convencida que “a vida é uma luta”. Não digo que não seja, digo que não pode ser; ou seja, para sobrevivermos enquanto espécie o fomento desses instintos não é acertado. E, para os que acreditam no instinto de sobrevivência das espécies, a luta colectiva da nossa pela sua sobrevivência sobrepor-se-á à luta individual. É o tempo da solidariedade, especialmente desde que a crise climática nos deu, espécie, um problema comum.

Partilho com os anarquistas a noção de que o poder sobre os outros é prejudicial às sociedades. Temos o poder de ver, entender, agir, melhorar a vida. Mas, quando temos poder sobre pessoas, as amedrontamos, as forçamos a servir-nos, lhes dificultamos a dignidade— coisas que se passam muito mais que o que gostamos de ver— estamos a prejudicar a espécie. E ela tem diante de si o maior problema de sobrevivência que teve desde que nasceu. Hoje não há canto do planeta a que não chame a sua casa— mas o planeta pode deixar de ser habitável!

A este propósito aconselho o artigo na última página do Público de hoje, uma resposta com humor a quem comparou os ecologistas, ao divinisarem a Terra, aos padres que atribuíram o terramoto de Lisboa à cólera divina. Chamei Gaia à Terra, o nome de uma deusa grega, mas o conceito é apenas para dizer que ela é um ser vivo, sujeito a morrer.

O padre Theillard de Chardin, um jesuíta que era cientista e filósofo, lançou, nos anos 50, o conceito de Noosfera, em que nós seríamos o sistema nervoso do planeta, a sua consciencia (antes do Internet e da globalização!). É legítimo ser poeta, visionário ou filósofo, isso não atrapalha a ciência. Se somos a consciencia da Terra pararemos o aumento de CO2 na atmosfera. O nosso sofrimento actual é semelhante ao de um fumador que lhe custa diminuir o consumo em que se viciou. Mas que sabe que o tem que fazer!

publicado por paradoxosfilho às 12:28
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Sábado, 3 de Fevereiro de 2007

Comunidade Global que somos, face ao mesmo problema

http://www.ipcc.ch/press/prwg2feb07.htm Posso estar enganado mas acredito que está na nossa natureza procurar a verdade. Imagino um antepassado mesmo antigo a usar um pau mais comprido que aquele que o grupo costumava usar para deitar abaixo os frutos da árvore; imagino os outros “macacos” a rirem-se da falta de pontaria dele, a não acertar nos frutos por usar um pau muito comprido; mas estava na natureza dele experimentar. E imagino-o a pôr-se em cima de uma espécie de banco e a conseguir. Essa atitude é-nos natural. Como nos é natural ficar inibido com o riso dos outros e desistir: precisamos de nos sentir integrados no grupo e a rejeição emocional é penosa. Por outro lado há de ter sido um prazer ver como todos passaram a usar o “banco”, dali para a frente. A atitude de tentar compreender as coisas tem sido seleccionada ao longo de milénios. É-nos natural.

         A ideia de que podemos ser livres, de que não precisamos de servir a um senhor para sobreviver ainda hoje não é intuitiva, é "muito avançada". Não chegou ao senso comum completamente, por mais que se diga o contrário.

         Portugal (nome que nasce do “Porto”, cidade burguesa), que tinha reis pobres, um feudalismo ainda mal estruturado e restos da cultura urbana romana e muçulmana, mediterrânica, teve condições favoráveis para essa ideia, desde o princípio. Apareceram muitas “vilas francas” entre nós, como apareceram cidades na Flandres e na Itália— a bela Florença, por exemplo! — onde a ideia de ser livre floresceu. Mas, e perdoe-se que não fui verificar a História, Portugal deve ter sido o primeiro país inteiro em que a burguesia toma o poder. Calhou assim! Como a nobreza, naturalmente leal, seguindo a legalidade e os costumes, prestou vassalagem ao rei de Castela, houve uma oportunidade para criar novas regras. João das Regras, ainda hoje odiado pelos que se recusam a usar um banquinho para apanhar a fruta— preferem ter criados que a apanhem! — lá conseguiu fazer aceitar a nova ordem pelos outros países da Europa, e pelo papa, que era comprável, perdoe-se o facto histórico. Nun’Álvres Pereira, um filho muito mais que segundo de um muito pequeno fidalgo teve a sorte de que, nessa altura, o duque de Lancaster reivindicava direitos na Galiza. Arranjou um aliado importante, o povo alinhou e venceu Castela. O mestre de Avis foi aclamado rei pela burguesia de Lisboa e pelo país todo. O primeiro rei burguês, que se casou com a filha do duque de Lancaster e começou uma nova história.

         Henrique, um dos filhos (rico graças à fortuna dos templários que o seu trisavô, D. Diniz, soubera acautelar criando a Ordem de Cristo, da qual Henrique era o Mestre) quis ver se a Terra era mesmo redonda, como alguns antigos em Alexandria já sabiam mas que não era ainda do senso comum, nem sequer do bom senso. Experimentou, foi ver; e trouxeram-lhe novas de que o céu era diferente, lá para o Sul, apareciam novas constelações!

         Toda a atitude de Portugal era científica, experimental, ver para crer, procurar a verdade, desconfiar do que Aristóteles dizia. E, como teve sucesso, levou a Europa toda atrás, nessa atitude. Daí Fernando Pessoa dizer que Portugal inventou a modernidade, fenómeno europeu, mas de que éramos a cabeça, a ponta de lança.

         Castela alinhou na aventura, depois a Europa, hoje o mundo todo. O “banquinho” que é a ciência passou a ser usado por todos, já ninguém se ri dele.

         Ontem, 2.500 cientistas vieram dizer, muito oficialmente, com a chancela da ONU, que, “inequivocamente” a aventura levou ao aquecimento do planeta e que, se não pararmos de aumentar a produção de CO2, cujo teor nunca tinha sido tão alto na atmosfera desde há 650.000 anos, damos cabo do planeta. Custou-me ouvir um dos ministros do Canadá, um dos países mais civilizados do Mundo, dizer que ficara surpreendido com a dimensão do problema. É falso, já sabia, todos sabem! O CO2 subiu 20%, na atmosfera, nos últimos 10 anos, é um facto. Já não se podem rir da ciência mas ainda podem fazer de conta, adiar. “Quem está bem deixa-se estar”.

         Mas está no ar um novo Renascimento, uma nova Idade, o povo vai ter que mudar as regras, como no tempo em que os “minori” tomaram o poder no Palazo de la Signoria, em Florença, ou o mestre de Avis deitou pela janela o Conde Andeiro.

         Enquanto português sinto-me responsável. Nós criámos este mundo. Não me interessa que os outros “macacos” se riam. A nossa alma adormecida tem aqui um desafio à sua altura. Empenhemo-nos, radicalmente, em não aumentar a nossa produção de CO2 (embora estejamos abaixo da média europeia, embora tivéssemos saído de cena antes da industrialização, nem sabemos bem o que isso é — mas não nos desresponsabilizemos!). Somos ainda a cabeça ou a face da Europa, ainda a podemos levar, de novo, e ao Mundo, por novos caminhos, novos paradigmas a inventar (ouço o riso dos "macacos").

         "Sem a loucura que é o homem / Mais que a besta sadia / Cadáver adiado que procria?". Que se riam os “macacos”! « Rira mieux qui rira le dernier ».

Que cenário destes vamos escolher, comunidade global que enfim somos, face à mesma ameaça?

 

 

 

publicado por paradoxosfilho às 14:20
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Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2006

Max Planck

Uma lição sobre mecânica quântica, na livraria Almedina, com um jovem astrofísico, Paulo Galli Macedo e aquele que foi seu mestre, antes de ele ir para Londres, Carlos Herdeiro. Tudo começou em 1900, com a constante de Planck; mostraram-nos como a mecânica quântica é um modelo que se aplica aos fenómenos consistentemente. É ciência. Mas a ciência, como disse o orador mais velho, não serve para descobrir a Verdade, como ele pensava em jovem, serve, apenas, para interferir eficazmente na tal realidade que o modelo descreve, serve a tecnologia. E está à vista que sim. Como Homem, disse ele, a sua procura foi por outros caminhos, percebeu que a ciência lhe não podia dar respostas. Citou o verso de Pessoa, “o mito é o nada que é tudo”, relacionando-o com essa descoberta assombrosa— e recente— de que há energia no vácuo, de que aparecem coisas do nada (provou-se que o Universo, em expansão— acelerada, sabemo-lo desde 1998— mantém a mesma densidade!... mas a física nada tem a ver com o senso comum, queríamos que as partículas se parecessem com bolas de bilhar e talvez se pareçam com cordas!).

E o mais jovem, nada dado a filosofias especulativas, surpreendeu-nos, depois de nos dar tanta informação científica, lendo um texto de Agostinho da Silva sobre a procura da Verdade (há um semelhante neste blog), pondo a ciência no seu lugar!

Falou-se dos mitos da ciência, do uso abusivo de conceitos como o de “quântico”— que vem de “quantidade”, daí a tal constante de Planck— ou de que a teoria da relatividade não prova que, noutro espaço ou noutro tempo, se mantenha a velocidade da luz.

Curioso foi Carlos Herdeiro a ir buscar o pensamento oriental (e aquele anterior ao positivismo) de que somos um com o universo, de que observador e objecto são o mesmo— até poderiam ter falado do conceito indiano de Maia, a realidade como ilusão— tudo isto porque “colapsa” o campo energético quando o observamos, isto é, desde Heisenberg que sabemos que o observador interfere no que observa.

Outra coisa interessante que se disse foi que, embora o conhecimento científico seja assimptótico, se aproxime da verdade sem nunca lá chegar, nada nos diz que o universo seja inteligível, racional.

Digo eu que apenas nos fascina descobrir; e mais, que esse é o nosso papel “natural”; assim terá razão o Papa no polémico discurso em que diz que “ser irracional é ir contra a natureza de Deus”.

A física teórica parece-se com uma paixão e tem efeitos práticos no mundo, bem mensuráveis! A nós, que não somos físicos, que podemos entender essa paixão mas a não vivemos, consola-nos ver que os sábios são humildes, ouvir deles que acham que todos temos o direito (e o dever) de pensar!

 

Um dos efeitos práticos, paradoxais, da mecânica quântica, com que o século XX começou e viveu, pode ter sido o de ter acabado por chegar ao senso comum a noção de que a verdade é inacessível, de que varia com o observador, de que é subjectiva, relativa— de que não interessa!

Daí a acharmos que temos o direito, subjectivo (mesmo sem sermos daltónicos!) de chamar verde a uma coisa vermelha, vai um pequeno passo.

Um passo que os cientistas não dão, eles que procuram a verdade, "assiptópticamente". Mas passo que dá alegremente o senso comum do fim do século XX e, ao fazê-lo, dá cabo das relações humanas, porque precisamos de confiar uns nos outros, precisamos de acreditar no que nos dizem!

Creio que, mesmo com o "pobre" instrumento para conhecer a Verdade que é a Ciência, podemos descobrir que o “modelo” de não valorizar as palavras, de não dar uma existência “real” aos conceitos a que elas se referem com exactidão, de aceitar que signifiquem algo de diferente para cada um de nós, é um “modelo” destinado ao fracasso da comunicação.

E a palavra, a razão, o “verbo”, será um mito, é decerto abstracto— mas é o “nada que é tudo”.

Sem ele, sem a comunicação (que exige a Verdade), não nos poderíamos apaixonar pela física, não poderíamos ter o projecto de, em 2010, lançar um satélite na esperança de fazer medidas que permitam criar a mecânica quântica da gravidade, a tal quarta força que resiste a ser integrada no modelo quântico!

 

Dia 21 de Dez, ás 21:30, o Taoísmo, com Flávia Monsaraz, a decana dos nossos astrólogos portugueses, na livraria Almedina, no Arrábida Shopping.

estou: ignorante
publicado por paradoxosfilho às 02:00
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