Domingo, 17 de Junho de 2007

"Não discutimos a família"

FamíliaÉ costume chamar à família uma instituição; creio que é mais que isso.

As instituições têm uma vida longa, resistem às transformações do mundo e é por isso que chamam instituição à família. Mas elas também têm sempre a marca do tempo em que nasceram, embora resistam aos tempos novos, adaptando-se. Assim com a Monarquia ou com a República, por exemplo.

Se considerarmos a família como uma instituição ela teria a marca dos tempos pré-históricos, estaria ligada à sobrevivência, que era a ocupação principal dos nossos antepassados— e ainda é a de uma boa parte dos nossos contemporâneos!

Ora, não é apenas porque as crianças precisam da família para sobreviver que a nossa espécie se organizou assim.

A nossa é uma espécie ambiciosa, pretende entender e melhorar o mundo, não apenas sobreviver.

E para que um filhote de homem floresça em todas as suas potencialidades, cujos limites ainda não conhecemos, não basta que tenha comida e abrigo. Precisa de sentir segurança e prazer.

Só nessa base poderá desenvolver a razão, num mundo em que só se faça como ele quer se ele tiver razão e só nessa base poderá chegar a ser capaz de amar, de aceitar incondicionalmente outras pessoas, aquelas que amar.

Só a partir daí poderá ter desejos ou projectos que não estejam relacionados com a sua sobrevivência, com a ânsia de fugir ao medo, mas que sejam criações, contribuições sociais.

Como seja a de criar uma família que o seja, que seja mais que a necessidade de sobreviver, de segurança institucional.

Só quando os seus desejos transcenderem os da sobrevivência “alargada”, os de ter uma boa casa, um bom automóvel, férias no Brasil… poderá aprender a usar as suas potencialidades de nascença, a intuição a que chamamos espiritual, o ser criador do seu destino, o ter a visão holística a que, na nossa cultura, se chama estar na graça de Deus.

Este desenvolvimento natural do homem começa na família, é a sua razão de ser.

Quem toma a família como um “valor” pode estar a tomar um meio pelo seu fim. É como as pessoas que precisam de um carro para se deslocar e transportar coisas e o compram porque ele é bonito e as envaidece, esquecidas do seu fim, como um Ferrari na garagem. A “instituição” da família, tão útil para criar gente, pode ficar pela procura da sua própria segurança, pela defesa da sua forma institucional e a gente que cria ficar ao serviço do utensílio para a criar.

O paradoxo é que esta gente (dita a “de direita”, leia-se a que tem algum “capital”, que é o dinheiro que se não ganha e gasta todos os meses), gente que tem óptimas condições para criar filhos que se aproximem daquilo para que todos nascemos, faz da família um fim e não um meio. Interessa-se mais pela forma das suas crias que pela sua alma.

Macaqueiam o amor, acreditam sinceramente que ele consiste em ralhar com os filhos quando têm os cotovelos em cima da mesa, em mostrar-lhes que os não aceitam se não forem “educados”, porque ser educado, um meio para conviver com os outros, se tornou num fim.

E, como cultivam a forma da família, muito se assustam com a “agressão” à “instituição” que estes tempos lhes parecem fazer. Entretanto, sem darem por isso, põem em causa o seu conteúdo, a sua essência. A “agressão” não vem do exterior, vem da “institucionalização” da família, que é coisa muito mais antiga que qualquer instituição. E que não precisa desses defensores— nem destes!

 

publicado por paradoxosfilho às 02:35
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Sábado, 14 de Abril de 2007

Oferta da Câmara de Lisboa:

 

Cartaz xenófobo

 

Cartaz xenófilo

 

A Camara retirou ambos os cartazes, foi muito democrata, muito burocrata, tanto mais democrata quanto os retirou para os oferecer à blogosfera. Paradoxos Filho agradece e saúda a coragem dos nossos imigrantes: um imigrante romano, há mais de dois mil anos, escreveu que aqui vivia um povo "que não se governa nem se deixa governar".

Sabemos hoje, graças a descobertas como a do túmulo da criança de Lepedo, que tinha sangue misturado de Homo Neanderthalensis com Homo Sapiens que a nossa raça de Neandertais sempre lidou com os povos invasores mantendo a sua pureza sanguínea: aquele foi o ÚNICO túmulo encontrado de sangue misturado. O mesmo se passou com os imigrantes celtas, judeus, gregos, fenícios, cartagineses, romanos, visigodos, suevos, mouros, pretos, índios, indianos, chineses, ucranianos... nunca os portugueses se misturaram com os outros povos e também nunca precisaram de emigrar. Os nossos problemas só começaram agora, no século XXI, como resultado da democracia, de se respeitar toda a gente e outras tolérias quejandas!

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publicado por paradoxosfilho às 01:35
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Sexta-feira, 30 de Março de 2007

Dignidade e respeito

um provinciano em Paris

Chegou o Verão e Piotr viu, na cozinha, o jornal que Alfred deixara, com uma fotografia de Hitler em Paris. Piotr escreveu no jornal, em polaco, com o lápis da cozinha: “quem não respeita a dignidade dos outros não respeita a sua”. Aconteceu-lhe! Sabia que era um gesto absurdo, demasiado perigoso, inútil, mas não foi procurar uma borracha para apagar o que escrevera. Deixou-o, assim, em cima da mesa da cozinha.

E, quando Alfred, que só falava com ele para lhe dar ordens, lhe pediu que traduzisse, Piotr, que sabia alemão para isso, disse: “quem não respeita a dignidade dos outros não respeita a sua”.

 

Alfred tinha 50 anos, era lavrador; tinha o filho na guerra e o filho fazia-lhe falta. Abstraindo da parte sentimental, era-lhe difícil arranjar um substituto para o trabalho que o filho fazia, um que aceitasse trabalhar só pela comida e fosse bem mandado, como era o filho, antes da guerra. Mas Alfred era patriota, ouvia o Fuehrer na rádio e trazia o cartão de membro do partido na carteira. Não reclamava. Falara, porém, no partido, da falta de mão-de-obra e tinham-lhe mandado Piotr.

 

Piotr tinha 20 anos, era filho de um lavrador e tinha sido apanhado na aldeia e transportado para ali. Chegara esfomeado e aterrorizado mas, quando lhe tinham dado uma malga de sopa, sorrira; tinha um sorriso bonito. Alfred, porém, não sorrira; lembrara-se das recomendações do partido para ter todo o cuidado em manter a dignidade da raça superior nas relações com o eslavo (houvera quem sentasse um escravo à mesa e isso fora muito criticado); assim, Alfred, que dantes comia na cozinha com a mulher, transformara o quarto do filho em sala de jantar e arranjara um lugar para Piotr no estábulo, que lhe pareceu mais quente que o celeiro.

 

Alfred não disse nada. Como interpretar aquilo? O rapaz compreendia que respeitava a sua dignidade respeitando a do seu senhor? Mas que dignidade poderia ter um eslavo? A palavra "dignidade" existia em polaco? Alfred afeiçoara-se ao rapaz, ele sabia da poda, havia uma cumplicidade silenciosa entre lavradores (Piotr gostava de trabalhar, o trabalho distraía-o das toneladas de memórias e preocupações pelos seus que carregava às costas; era saudável e davam-lhe de comer, não estava na guerra, como o pobre do filho do Alfred, cuja sorte era bem pior)...

E se ele não compreendesse que era de uma raça inferior? Na verdade até a Alfred lhe custava compreender, compreendia que os judeus eram uma raça inferior, desprezível, como os homossexuais ou os ciganos, mas aquele rapaz loiro e de olhos azuis… bem, os cientistas alemães tinham decretado que os eslavos eram uma raça de escravos, quem era ele para duvidar disso?

Deitou fora o jornal, não fora alguém lembrar-se de castigar o rapaz, que lhe fazia falta, e reforçou a sua pose de senhor: virava as costas quando o eslavo lhe dirigia a palavra, tornou-se ainda mais distante, senhoril: estava em jogo a dignidade da raça ariana! “Só os fortes sobrevivem!”, nada de mostrar respeito pelos inferiores, tolerância, no máximo.

 

Piotr esqueceu-se do caso, trabalhava, comia, dormia e tinha esperança que os polacos americanos convencessem o Roosevelt a entrar na guerra.

 

Mas Alfred decidira educar o rapaz: explicava-lhe a sorte que a Polónia tinha em ser governada por alemães, uma raça superior física e intelectualmente, os senhores naturais do mundo e sugeria que, se ele compreendesse bem isso e tivesse qualidades de lutador, um dia, como ele tinha amigos no partido, Piotr poderia fazer um exame de raça e talvez passasse por ariano. Piotr enfurecia-se calado, na sua pose de eslavo respeitador, não queria problemas, trabalho sem comida.

 

Mas tantas vezes vai o cântaro à fonte até que parte: Alfred atribuía os problemas do mundo aos judeus quando Piotr disse: “tenho bons amigos judeus, na minha terra, nunca nos trataram com a falta de respeito com que os alemães nos tratam”. “Mas tu és alemão”, disse Alfred. “Sou polaco, graças a Deus”, disse Piotr.

“Mas nós respeitamos os povos inferiores que colaborarem connosco”.

”Não há povos inferiores, se houvesse seriam os que não respeitam os outros”.

“Respeitamos quem merece respeito”.

“Só se pode conversar com respeito mútuo”, disse Piotr.

“Mas eu até converso contigo, que és um eslavo!”

“Não conversa”, disse Piotr, “para conversar é preciso admitir a hipótese de que, da conversa, se saia a pensar de uma forma mais esclarecida— e o Alfred admite que um eslavo o esclareça? — apenas admite que eu possa ser esclarecido, embora de uma raça de fracos, desprovidos de pensamento abstracto, não é uma conversa!”.

Alfred deu meia volta, virou-lhe as costas, penitenciando-se da sua fraqueza, da vergonha de não ter sabido intimidar aquele eslavo com a força natural da sua raça: aquele rapaz era tão inferior intelectualmente que nem sabia reconhecer um superior quando o via!

 

Meia dúzia de anos depois Alfred ouvia na rádio a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada nas Nações Unidas. Piotr ouvia-a na sua aldeia. Pode ser que não tivesse sido preciso bombardear Dresden para vencer a guerra— mas tinha sido preciso vencê-la! Ambos, ouvindo a palavra “dignidade”, lembraram-se do jornal escrito a lápis e pensaram que a Dignidade bem podia ser uma matriz para construir a Europa da Paz.

 

publicado por paradoxosfilho às 20:31
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Segunda-feira, 26 de Março de 2007

50 anos

EuropaSe procurarmos o que nos une, europeus, para que Norte aponta a bússola da nossa civilização, o que procuramos criar com a Democracia, o Desenvolvimento e a Descolonização, que eram os três DD do 25 de Abril, o dia do nosso regresso a casa, cabeça perdida da Europa que éramos, encontraremos um valor, para nós, europeus, fundamental e que não sabemos imaginar que o não seja no Mundo: a Dignidade humana.

É um conceito que implica o respeito pela liberdade, pela democracia, que implica que se acabe com a fome, a miséria, a iliteracia, a falta de abrigo, que implica que as minorias sejam respeitadas e se possam exprimir—é um vasto conceito. A nossa civilização admira quem, em circunstâncias adversas, mantém a sua dignidade, mesmo sacrificando a vida; mas caminha para uma sociedade em que essas circunstâncias não existam, em que as agressões à dignidade humana sejam impensáveis.

Convém lembrar que apenas 33 anos nos separam dessas circunstâncias politicas, no nosso país.

E lembrar que ainda temos muito pela frente, que o medo teve 40 ou 50 anos para se entranhar nas pessoas que ainda não acreditam que voltámos à Europa.

Ainda há quem sinta que não conseguirá resolver nada numa repartição pública se lá não conhecer alguém, ainda se pede a quem conheça o médico da pessoa de família que foi internada que “dê uma palavrinha” por ela (diga-se que não foram os médicos quem criou essa atitude!); ainda se receia não conseguir um trabalho por razões exteriores à competência profissional …

O liberalismo económico, dinheiro gera dinheiro, está a criar uma separação entre os que o têm e os que o não têm que faz lembrar tempos antigos.

Foi a fome de dignidade, não apenas de comida, que levou tantos portugueses, nos anos 60, para as terras frias do Norte da Europa, votando com os pés, envergonhando Salazar. Lembro-me do espanto dos que aceitavam o salazarismo quando se falava de dignidade humana— nunca tinham tido a sua pisada, não achavam que isso fosse um assunto político: “afinal, mesmo na prisão, um homem pode manter a sua dignidade, é um assunto pessoal! E, se são capazes, trabalhadores, inteligentes, porque não se juntam a nós, que vivemos bem? O regime é justo!”.

A Europa é uma árvore jovem, com 50 anos, que ainda se alimenta do estrume do nazismo e da sua guerra. Não deixemos de a regar: há períodos de seca pela frente, há doenças possíveis, riscos vários, tempestades— acarinhemo-la! Europa, satélite de Júpiter

É possível que o filme que precede o logótipo das comemorações dos 50 anos da Europa

se inspirasse nesta imagem de Europa, satélite de Júpiter, tirada pela sonda Galileu.

publicado por paradoxosfilho às 14:51
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Uma fantuchada incómoda

Salazar ganhou o concurso da RTP para escolher o maior português de todos os tempos!

É certo que votaram 200 e tal mil pessoas, ou seja apenas 2 % dos portugueses, é certo que foi uma oportunidade de revanchismo, enquanto os portugueses democratas (os que se deram ao trabalho de votar neste concurso) se dispersaram por tantas possibilidades, os saudosos do tirano se concentraram no mesmo voto. No tempo da outra senhora, Salazar era, para os seus adeptos, o maior português de sempre; para os seus adversários nem sequer havia unanimidade em que fosse o pior!

Está de parabéns a direita, soube ser eficaz para ganhar um concurso televisivo. E estão de parabéns os democratas, que permitem que a direita se exprima. Quanto a Portugal…é paradoxal!

   N.B. O Público de ontem, 27 de Março, fala em 50 mil votantes, dos quais 7 mil em Salazar (seriam 0,07% dos portugueses, incómodo, apesar de tudo!)

publicado por paradoxosfilho às 01:59
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Da direita (texto de 2005)

Se houver uma realidade objectiva, independente do observador que somos – coisa pouco provável, diga-se! — as palavras nunca a dirão bem. Se falarmos da realidade das palavras, de uma que se molde a elas, mesmo assim há quem dê às palavras conteúdos diferentes; conteúdos aparentados, muitas vezes, mas sempre diferentes, variando com a sub cultura dentro da língua.

Resta dizer o que é a direita neste texto (escrito às 6 da manha para substituir os cigarros).

A direita é o ponto de vista conservador (a esquerda o inovador). Tem, portanto, razão de ser se a inovação for para piorar e não tem razão se ela for para melhorar. Mas a direita é também o temperamento que se atém ao ponto de vista conservador, aquele que tem medo da mudança só porque é mudança. A esse temperamento, o estudo só interessa se for ajudar a manter tudo como está, no essencial. “É preciso que mude alguma coisa para que tudo fique na mesma”, como dizia o belo príncipe siciliano, personagem de Visconti, face às mudanças que Garibaldi trazia.

Há uma direita inteligente, ou melhor, que vê as coisas como são—na medida em que isso possa ser!—direita que sabe que as sociedades são injustas, mas que não acredita que possam deixar de o ser. Baseia-se na História, mas essa pode ter sido escrita por quem tenha apagado—ou nem mesmo pensado em inclui-los—alguns momentos em que houve justiça, no sentido social da igualdade, não apenas no legal.

O problema com a direita, como com tudo, é o exagero. O temperamento conservador pode cair na tentação de negar a evidência. Pode mesmo proibir que se diga o que vier pôr em causa o pensamento habitual, tranquilizador, os hábitos. A censura é de direita. Se Estaline a usou foi de direita.

O lado chocante da direita não é bem o ser conservadora, é o uso do poder para negar o diálogo, a procura de verdades novas. Para negar o direito de pensar, de escrever, de procurar a Verdade (claro que é provável que não exista, mas dessa procura se tem feito a civilização).

Pode-se ouvir uma pessoa de direita dizer que “a Verdade não interessa”. Aí estamos no desequilíbrio — que também pode acontecer à esquerda, se negar o irracional! —estamos no caminho em que a única inovação são as modas irracionais e cíclicas, estamos a negar a razão, a civilização, a possibilidade de fazer ciência.

Ora, somos animais irracionais, sujeitos a paixões. Se a paixão da ordem habitual, da aparente segurança que ela traz nos levar a ser surdos, a não querer ouvir, ver, interrogar, pensar, essa paixão levar-nos-à ao sofrimento. Creio que  havia umas irmãs do Lampedusa que recusavam a tal mudança para que tudo ficasse na mesma.

Mas há um sofrimento que não é sofrimento, não é visível: podemos ter sempre jantares com criados de libré e ter perdido algo que nem sabemos já que existe: o gosto de procurar a inacessível verdade, de experimentar novos critérios, de estudar.

A direita corre o risco de “vender a alma ao diabo”: quando pede a quem diz algo que incomoda que se cale, ou quando já não pede, ordena que se cale. Ou quando manda prender quem possa pôr em causa as “certezas” em que baseia a sua segurança.. Quando rejeita, quando mata, porque chega aí a defesa do sonho, do único mundo que lhe faz sentido, mesmo que seja injusto, irracional. Mata o mensageiro da verdade, se for preciso, tudo menos vê-la.

 

Na linha da esquerda temos quem inventou que somos livres, o tal livre arbítrio. Quem inventou que somos todos iguais, todos irmãos, filhos do mesmo Pai celeste.

“Não percebia nada de finanças nem consta que tivesse biblioteca” mas é muito citado pela direita, pouco pela esquerda. Paradoxos.

publicado por paradoxosfilho às 01:54
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Segunda-feira, 4 de Dezembro de 2006

O Sol e a Lua

 

  

Desde a queda do muro de Berlim que se fala da morte da esquerda. Façamos uma analogia: o Sol é a direita e a Lua a esquerda. E está a acabar o eclipse da Lua (a esquerda), que durou os anos 90 e o início deste século. De novo ela é visível na nossa noite, sobretudo nos dias em que mais claramente se opõe ao Sol. Materna, sem luz própria, ilumina a nossa fragilidade nocturna, solidária, humilde. É o inconsciente, as emoções, a esperança de um outro dia.

O Sol é o Pai, a força da luz que tem, a consciência, a razão, o que existe sem dúvidas e as combate, o que nada espera do seu declinar: carpe diem!

Fernando Pessoa, que não levava a sério a sociologia, “ciência” nascente, e se tomava ironicamente por “sociólogo”, escreveu sobre isto quando disse que, numa sociedade, existem forças conservadoras e outras progressistas e que o excesso de umas leva à força das outras. Não sei se conhecia o conceito chinês de que o excesso de Yang (a direita) o transforma em Yin (a esquerda) e vice versa mas sabe-se que estudou Alquimia, conheceria o conceito das “bodas alquímicas”, entre o Sol e a Lua, os símbolos para todos os opostos.

Talvez se possa dizer, dialecto-materialisticamente, que a contradição entre o “Comunismo” e o “Liberalismo” gerou a Europa social-democrata que temos, a qual, perdida a Mãe, ainda tem Pai (punhámos o Bush filho nesse lugar!) mas que, quando o perder, há de iluminar, de noite, a Lua que ora nasce; na América do Sul? Connosco, Ibéria? Talvez, mas “o futuro a Deus pertence”, não a nós. O nosso “sociólogo” (F. Pessoa) escreveu sobre a Ibéria, caracterizou os “nuestros hermanos” como organizados (solares, portanto, do cérebro esquerdo, Yang) e a nós como emotivos (lunares, portanto, do cérebro direito, Yin). Preconizou (antes de Franco) a Monarquia para Espanha e a República para Portugal. E a união ibérica, união livre de estados independentes, mas íntima, geradora de civilização, fértil. É sabido como andamos sempre em contra-ciclo, politicamente, mas nunca estivemos tão perto: o Sócrates solar que ilumina com as suas “certezas” este povo lunar e o Zapatero, lunar, que fala de emoções de solidariedade a esse povo solar, organizado, são o prenúncio de um encontro fértil, que ultrapassa as visões de Torga ou de Unamuno.

Dizia F. Pessoa que algo que nos individualiza, a nós, Ibéria, na Europa, é o facto de Carlos Magno ter parado os muçulmanos nos Pirinéus. Vivemos durante 700 anos numa civilização rica, que lia os gregos antes do Renascimento, que permitia que cristãos convivessem com judeus e islâmicos enquanto a Europa era só bárbara; e essa faceta da nossa história ter-nos-á dado a vantagem cultural que nos levou a descobrir o mundo, a “inventar a modernidade”, como ele dizia.

Talvez estejamos fadados, desde esse tempo, para resolver esse fictício “choque de civilizações” que o “pai Bush”, viúvo da U.R.S.S, inventou para se entreter e dar vazão aos seus canhões. E sem sair da Europa, José Saramago, sem uma fenda nos Pirinéus, aqui mesmo, na nossa aldeia global.

estou: chanfrado
publicado por paradoxosfilho às 12:02
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