Sábado, 7 de Abril de 2007

Bem aventurados os pobres de espírito…

 

                                                             Rio Pripyat na Bielorúsia

 

Há o real, com a sua física,

há os seres vivos, que também são reais e físicos, à sua maneira

 

E há o que sentimos,

que só é real para nós.

 

Quando falamos do que é real para todos

juntamos-lhe, sabendo-o ou sem saber,

querendo ou sem o querer,

Aquilo

Que só para nós existe.

 

(Mas, disso, só ouvem

o que é real, para eles!)

 

Porém, tão real como o barulho dos carros

Ou a música que o vento faz nas árvores,

É o incómodo dos carros e a beleza das árvores ao vento.

-- O que sentimos é real para nós!

 

E quando fazemos o que é real para nós,

Quando o dizemos,

escrevemos, pintamos ou cantamos,

com arte ou sem arte,

-- Somos reais para todos.

 

A nós se aplicam as leis que só a nós se aplicam

que se vêm juntar às leis da física

e às leis das outras ciências, suas filhas naturais

E somos realmente reais.

 

Talvez se chame espírito ao que nos impede de ser reais para todos,

ao que só é real para nós, ao que não sabemos mostrar,

fazer, falar, escrever, pintar,

com arte ou sem arte.

 

E quando, por fim, somos, realmente, o nosso espírito

— que se mostra em cada gesto que fazemos—

talvez deixemos de o ter, porque é de todos

E, pobres de espírito, habitemos o céu.

 

Como as águas que foram de um rio habitam o mar,

Que lá chegaram.

Alheias ao fluir

do rio que são.

publicado por paradoxosfilho às 15:34
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Domingo, 18 de Março de 2007

O Sol e a Lua 3

A linguagem da Lua também usa a voz; usa-a como um instrumento musical, para pontuar silêncios, juntar emoções em melodias que dizem sentimentos, ou em ruídos que dizem frustrações e confusões. Faz onomatopeias, usa o som das palavras pelos tons e os conceitos usa-os como os pratos, para fazer um chinfrim inquietante.

Aprende-se em criança, antes da linguagem do Sol e das palavras, fala-se por intuição, por sorrisos e pela falta deles, por gestos suaves ou contidos, graciosos ou bruscos; e só depois se aprendem as palavras.

Se a criança se sentir segura, tiver algum prazer e puder ser quem é, reconhecida como alguém que existe e pensa e vê; se se sentir amada, amar e chegar a sonhar e a desejar seus sonhos a aparecer, reais, então, na tranquila intuição saberá que fala a linguagem da Lua. Podem vir as palavras, os números, a razão, a idade adulta que o seu espírito tem um canal para ouvir e falar com o corpo.

Se tiver medo, não houver prazer e se se tiver que submeter, antes de ser, ao papel dado, na esperança de um afecto que só vem se o souber representar— o que nunca sabe porque está a ser escrita, a aprender de cor, porque lhe faltam sempre novas folhas do estranho script; então só pode macaquear os adultos, que, agastados, lhe pedem que seja criança, um outro misterioso script, escrito na infância deles, adultos, inacessível. Acontece, naturalmente, que ela aprende, antes da madrugada, a linguagem do Sol, refugia-se na clareza das palavras sem corpo, espera que ele nasça, esquece a Lua, deixa aquela cadeira básica, a linguagem das emoções, dos sentimentos, por fazer, atrasada!

A linguagem do Sol é a do adulto, da razão. Nascido o Sol a falta da Lua se não nota tanto e passam-se as etapas do rigor das palavras e dos números, do progresso, do poder sobre as coisas concretas.

Mas, na terceira idade de Saturno, o Sol se vai pondo e a Lua vai nascendo.

Se se tratar de uma velha conhecida, sabe bem aprimorar uma línguagem quase esquecida, tão desprezada, refinar sentimentos que ficaram esboçados, ver os sonhos esquecidos da infância no crescer dos netos, falar com eles sem palavras, sentir. Mas se nunca se falou bem a linguagem da Lua, com desenvoltura, a cadeira atrasada é difícil, inacessível.

Os sentimentos doem, falta a luz clara da razão, entra-se na noite, no desconhecido, mergulha-se no inconsciente, lunar, "antiquíssimo", parece que o neocortex se apaga com o Sol ... resta a "boutade" que se dizia aos caloiros: "não há nenhuma cadeira que se não possa fazer em 24 horas!" Mas já não somos caloiros.

publicado por paradoxosfilho às 00:30
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Terça-feira, 5 de Dezembro de 2006

A Ibéria do Sul - O Sol e a Lua 2

Continuando o pensamento por analogia— que não é o racional, é o simbólico— assim como a Europa tem a península Ibérica, a América tem a península da América do Sul. Lá, os Pirinéus são o istmo, com o seu canal do Panamá e o país continental, solar, é o Brasil. Os outros, lunares, falam castelhano e viram-se para o Pacífico, por onde partirão, um dia, em demanda do Preste João das Índias, em naus feitas “da matéria de que os sonhos são feitos”.

         A Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade não se podem criar nas bolsas de valores. Allende foi derrubado, no Chile, quando quis que os chilenos aproveitassem da riqueza do seu cobre, que depressa voltou às bolsas da “maior democracia do mundo”, que para isso lá instalou o ditador Pinochet; tinha sido eleito democraticamente, Allende, com fair-play, sem revolução armada— em vão! Chávez resistiu e é a chave da mudança: como se pode chamar ditador a quem é eleito sem batota? O povo celebra nas ruas, a maior democracia do mundo ainda há de ser a dos Estados Unidos da América do Sul!

         País riquíssimo, a América do Sul, de gente encantadora, com raízes no mundo todo, que trabalha para encher longínquas bolsas de valores, que reinam dividindo… mas até quando?

A mestiçagem, que em mais nenhum lugar é como aqui, é mais uma analogia com a Ibéria: iberos, celtas, fenícios, gregos, romanos (que para cá deportaram os insurrectos judeus, para estes confins do império), suevos, visigodos e outros godos, árabes e berberes, vikings que subiam o Tejo à procura de moiras encantadas com seus olhos azuis, pretos, indianos, índios do Brasil, até os chineses chegam, pela porta de Macau. A América do Sul excede tudo isso, é uma mulatinha com avós alemães de braço dado com um japonês raçado de italiano, é o mundo todo num abraço: os ramos podem brigar mas as raízes abraçam-se, diz um provérbio africano. Utopia em construção acelerada, que passa a fronteira do México com o novo México sem que haja muros que a detenham.

E Lula, lunar, no Brasil solar, abrasador.

As línguas ibéricas, juntas, são faladas por mais de 800 milhões de criaturas vivas.

publicado por paradoxosfilho às 18:10
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Segunda-feira, 4 de Dezembro de 2006

O Sol e a Lua

 

  

Desde a queda do muro de Berlim que se fala da morte da esquerda. Façamos uma analogia: o Sol é a direita e a Lua a esquerda. E está a acabar o eclipse da Lua (a esquerda), que durou os anos 90 e o início deste século. De novo ela é visível na nossa noite, sobretudo nos dias em que mais claramente se opõe ao Sol. Materna, sem luz própria, ilumina a nossa fragilidade nocturna, solidária, humilde. É o inconsciente, as emoções, a esperança de um outro dia.

O Sol é o Pai, a força da luz que tem, a consciência, a razão, o que existe sem dúvidas e as combate, o que nada espera do seu declinar: carpe diem!

Fernando Pessoa, que não levava a sério a sociologia, “ciência” nascente, e se tomava ironicamente por “sociólogo”, escreveu sobre isto quando disse que, numa sociedade, existem forças conservadoras e outras progressistas e que o excesso de umas leva à força das outras. Não sei se conhecia o conceito chinês de que o excesso de Yang (a direita) o transforma em Yin (a esquerda) e vice versa mas sabe-se que estudou Alquimia, conheceria o conceito das “bodas alquímicas”, entre o Sol e a Lua, os símbolos para todos os opostos.

Talvez se possa dizer, dialecto-materialisticamente, que a contradição entre o “Comunismo” e o “Liberalismo” gerou a Europa social-democrata que temos, a qual, perdida a Mãe, ainda tem Pai (punhámos o Bush filho nesse lugar!) mas que, quando o perder, há de iluminar, de noite, a Lua que ora nasce; na América do Sul? Connosco, Ibéria? Talvez, mas “o futuro a Deus pertence”, não a nós. O nosso “sociólogo” (F. Pessoa) escreveu sobre a Ibéria, caracterizou os “nuestros hermanos” como organizados (solares, portanto, do cérebro esquerdo, Yang) e a nós como emotivos (lunares, portanto, do cérebro direito, Yin). Preconizou (antes de Franco) a Monarquia para Espanha e a República para Portugal. E a união ibérica, união livre de estados independentes, mas íntima, geradora de civilização, fértil. É sabido como andamos sempre em contra-ciclo, politicamente, mas nunca estivemos tão perto: o Sócrates solar que ilumina com as suas “certezas” este povo lunar e o Zapatero, lunar, que fala de emoções de solidariedade a esse povo solar, organizado, são o prenúncio de um encontro fértil, que ultrapassa as visões de Torga ou de Unamuno.

Dizia F. Pessoa que algo que nos individualiza, a nós, Ibéria, na Europa, é o facto de Carlos Magno ter parado os muçulmanos nos Pirinéus. Vivemos durante 700 anos numa civilização rica, que lia os gregos antes do Renascimento, que permitia que cristãos convivessem com judeus e islâmicos enquanto a Europa era só bárbara; e essa faceta da nossa história ter-nos-á dado a vantagem cultural que nos levou a descobrir o mundo, a “inventar a modernidade”, como ele dizia.

Talvez estejamos fadados, desde esse tempo, para resolver esse fictício “choque de civilizações” que o “pai Bush”, viúvo da U.R.S.S, inventou para se entreter e dar vazão aos seus canhões. E sem sair da Europa, José Saramago, sem uma fenda nos Pirinéus, aqui mesmo, na nossa aldeia global.

estou: chanfrado
publicado por paradoxosfilho às 12:02
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