Quinta-feira, 21 de Dezembro de 2006

Humildade

         Os adultos jovens e saudáveis podem ver na humildade uma fraqueza de crianças ou de velhos. Que é que não está ao alcance do Homem, se ele nisso se empenhar? A ciência, o conhecimento, a sabedoria, tudo é ao alcance de quem se meter ao caminho. Podem ver a humildade como coisa pregada por gente que quer poder e que algum lucro tira de essa “virtude” incutir aos fracos.

         E podem guardar a convicção de que, se um dia sentirem isso da “humildade” saberão que envelheceram mas não deixarão de pensar como antes.

         Porém esbarramos, a cada passo, com aquilo que nos transcende: o tempo, o mistério da morte. E, mesmo nos campos que não são transcendentes, assuntos estudáveis, acessíveis ao nosso esforço, o tempo de uma vida não chega; e cada vez menos chegará. A humildade é uma questão de inteligência, parece ser uma atitude natural.

         “A verdade está no paradoxo”, como dizia Fernando Pessoa.

         Pediram-nos, de facto, humildade, no tempo do Estado Novo, por exemplo. Lembro-me de me dizerem, quando falava, criança, em democracia: “esse assunto já foi estudado por quem sabe, a democracia não se pode aplicar nos países do sul da Europa, não somos ingleses”—!— e ela nasceu em Atenas, que está à mesma latitude de Lisboa! A cada passo vemos “doutorados” invocar argumentos de autoridade que, uns anos mais tarde, se mostram errados. Talvez seja o caso na polémica referida em outros posts entre o historiador (com livros bem feitos, estudados) V. Pulido Valente e o pouco humilde José Júdice, o qual sugere que a Europa atravesse o Mediterrâneo.

          A condição humana pede-nos que tenhamos a ousadia de pensar sobre assuntos em que nos sentimos humildes, ignorantes. E que tenhamos a humildade de nos interrogar sobre os assuntos em que nos sentimos seguros de conhecer.

 

         Uma notícia de hoje: a guerra do Iraque já atingiu o que os USA gastaram no Vietname, em valores actuais: 549 mil milhões de dólares.

         Lembremos que muita gente pensou, humildemente, que os USA deviam saber o que estavam a fazer, com tantos conselheiros, das melhores Universidades do mundo. Foi considerado pouco humilde pensar que se não tratava da necessidade estratégica de petróleo mas, simplesmente, da necessidade de lucro da maior indústria americana: a das armas.

         Por fim lembremos a sabedoria popular, face à qual me sinto humilde e atrevido, paradoxal: “Deus escreve direito por linhas tortas”.

         O Destino parece existir, mas somos nós que o fazemos! Humildemente.

publicado por paradoxosfilho às 14:46
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31 comentários:
De antonioduvidas a 10 de Janeiro de 2007 às 22:20
Tentei enviar-lhe por e-mail o artigo do Arq. Gomes Fernandes, ñ sei se recebeu c/sucesso. Phttp://avenida-dos-aliados-porto.blogspot.com/2006/01/opinio-28-respeitar-o-espao-pblico.html


De paradoxosfilho a 11 de Janeiro de 2007 às 01:22
Obrigado pelo artigo, que li agora. A fotografia é bonita, satisfaz os olhos de quem está empoleirado no balcão da Câmara, que mais ninguém a via! E as pessoas, quando se juntavam na avenida, calcavam relva e jardim, talvez porque o desenho é “datado”, como lembra o autor do artigo, datado porque pouca gente ali andava e datado porque ponto de vista do poder de cima, do dos donos dos edifícios que o ladeavam; simbolicamente, o novo desenho é para ser visto da rua, se reparar bem tem inúmeras perspectivas novas e agradáveis. Cá em baixo, na rua— enquanto não houver, de novo, cargas policiais sobre o povo e enquanto ele puder pisar o seu espaço, o público! Não sabia que D. Pedro olhava desafiadoramente os miguelistas que cercavam o Porto; é, de facto, uma história a respeitar. Mas é, hoje, que o Porto não está cercado, mais preciso que um homem livre olhe o poder autárquico desafiadoramente, ele é que nos tira a liberdade, pelo pais todo, ele é que se serve mais a si que aos cidadãos; mas são opiniões! Obrigado por polemizar, é verdade que deveríamos ter um maior papel no desenho urbano, ele é de todos!


De antonioduvidas a 14 de Janeiro de 2007 às 19:13
Ainda sobre o Palácio do Freixo agradeço os Links. Na minha óptica de leigo na matéria acho que se deveria manter a cobertura lateral com lousa. Assim a reconstrução seria mais verdadeira.


De paradoxosfilho a 14 de Janeiro de 2007 às 23:20
É uma questão de gosto, o revestimento. Gosto muito da lousa e vou fazer uma parede com esse revestimento numa recuperação duma casinha de arquitectura popular tradicional. Além disso é uma pedra da região, é sempre adequado usar os materiais da região. Neste caso tê-la-ia usado nas pirâmides que encabeçam os quatro ângulos do edifício. Mas não nas paredes porque se trata de um palácio e a pedra trabalhada faz um contraste muito bonito com a parede caiada. Também gosto de ver as caixilharias brancas. Já agora, a Casa de Ramalde, também obra do Nasoni, ficaria bem caiada. A argamassa de cal caiada não deixa passar a água líquida mas permite que passe o ar e a casa “respira”, o que é saudável para as paredes e para as pessoas. Pode-se misturar com alguma tinta plástica, para não sujar quem se encoste mas, se for só tinta, lá se vai o conforto que a cal dá. Térmico, também. Não é só uma questão de gosto mas é sobretudo! Todo em lousa o edifício era soturno, e a recuperação não precisa de ser “fundamentalista”, pode e deve melhorar quando isso não mexa com a arquitectura do edifício. Obrigado por polemizar 


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